CONFUSÃO GERAL: mulheres transexuais não querem ir para presídios femininos

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Sistema carcerário abriga hoje 82 travestis, 27 mulheres transexuais, 211 lésbicas, 198 gays e 253 bissexuais

Gabriele, Renata e Paulina nasceram meninos e viveram em diferentes cidades até a adolescência. A falta de oportunidades as levou à prostituição nas ruas do Rio. E o contato com a violência as encaminhou para o presídio masculino Evaristo de Morais, em São Cristóvão, conhecido como Galpão do Amor, por concentrar a maior parte dos detentos homossexuais. Para conhecer melhor esse universo e cumprir a resolução federal que garante direitos aos LGBTs atrás das grades, a Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap) está fazendo o primeiro censo carcerário sobre o grupo, numa parceria com o Ministério Público estadual.

O principal objetivo da pesquisa é saber se as mulheres transexuais e as travestis querem ser transferidas para unidades femininas ou alas exclusivas nas cadeias masculinas. A maioria já disse que não quer mudanças. O sistema carcerário abriga hoje 82 travestis, 27 mulheres transexuais, 211 lésbicas (incluídos os homens transexuais), 198 gays e 253 bissexuais, que, juntos, representam 1,4% da população carcerária.

Uma resolução do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça, de 2014, permite que as mulheres transexuais fiquem em presídios femininos. Entre outros direitos garantidos a todos os homossexuais, estão o uso do nome social, de cosméticos e de roupas femininas ou masculinas, além do tratamento hormonal e da manutenção de cabelos compridos. De acordo com a norma do conselho, travestis são pessoas do sexo masculino, mas que, socialmente, se apresentam como mulheres. Já as transexuais femininas são aquelas que nasceram homens, mas se identificam, psicologicamente, como sendo do gênero feminino.

— Já sabemos que, enquanto a maioria dos heterossexuais está condenada por tráfico de drogas, cerca de 90% das mulheres transexuais e travestis cometeram furtos ou roubos. Elas têm baixa escolaridade, são empobrecidas e, por conta do preconceito, não são aceitas no mercado de trabalho. Por isso, depois que saem do sistema, acabam cometendo outros crimes e voltando para a cadeia — explica Ana Faulhaber, responsável pela Coordenação das Unidades Prisionais Femininas e Cidadania LGBT da Seap, criada em maio passado para garantir políticas de reinserção social.

ONZE VEZES NA PRISÃO

As trajetórias de Gabriele, Renata e Paulina são parecidas com as da maioria das 42 travestis que estão no Evaristo de Morais, que abriga um total de 109 LGBTs. Elas eram prostitutas e acabaram presas após seguidos roubos. Aos 29 anos, Paulina está em sua 11ª passagem pela cadeia, sete delas ainda na adolescência. Ela conta que sabia, desde os 9 anos, que não queria ser menino. Mas o processo de transformação acabou acelerado, depois que sofreu abuso sexual, aos 11 anos:

— Eu trabalhava na fábrica de pão do meu pai, em Belford Roxo, quando conheci um homem que me dava presentes e dinheiro, até o dia em que ele me estuprou. Eu era uma criança.

Na rua, Paulina conseguiu dinheiro para, aos 15 anos, colocar a primeira prótese. Aos 18, já havia aplicado silicone industrial em diferentes partes do corpo. Mas a vida na prostituição nem sempre deu certo, e a jovem começou a furtar a “clientela”:

— Já ganhei muito dinheiro. Tenho minha casa, pago minhas próteses e sustento uma filha que adotei. Mas nem tudo deu certo. Uma vez me confundiram com outra travesti que havia furtado a arma de um cliente. Eles me torturaram e arrancaram duas unhas do meu pé com alicate. Só depois perceberam que eu era inocente. Aí, me deixaram na porta de um hospital com R$ 300.

Vizinha de cela de Paulina, Renata cresceu na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana. Aos 12 anos, descobriu que nascera no “corpo errado” e, aos 15, fugiu de casa, após passar anos tentando esconder da mãe uma vida dupla.

— Eu tinha medo da reação da minha mãe, mas depois ela disse que me amaria de qualquer jeito. A partir desse dia, parei de usar peruca e deixei meu cabelo crescer — conta Renata, hoje com 20 anos, mostrando a tatuagem no braço com o nome da mãe.

Gabriele conheceu Renata na Quinta da Boa Vista, num ponto de prostituição homossexual, após deixar sua casa, em Duque de Caxias. As duas se tornaram grandes amigas e parceiras no crime.

— A gente estava com 18 anos, quando eu furtei a carteira de um gringo em um quiosque em Ipanema. Acabamos presas — contou Gabriele, que já foi flagrada outras duas vezes.

CONTRA A MUDANÇA

Das três amigas, apenas Gabriele, que é casada há nove anos com um montador de móveis, pensa na possibilidade de ser transferida para um presídio feminino, mas ainda não tomou essa decisão. As outras duas são companheiras de colegas de celas e, por isso, preferem continuar no Evaristo de Morais.

— Estamos no melhor presídio para a população LGBT. Nas unidades dominadas pelo Comando Vermelho, não admitem travestis — contou Gabriele. — Mas aqui há regras. Quando a gente casa, tem que estalar no miolo (declarar oficialmente o casamento). Assim, todos passam a respeitar.

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Diretor de Saúde e Cidadania LGBT da Seap, Carlos Renato Alves Silva explica que a ideia inicial é tentar reunir os homossexuais nos presídios Evaristo de Morais e Plácido Sá Carvalho:

— Também há a possibilidade de criarmos uma ala para as mulheres transexuais e as travestis no Evaristo de Morais e outra para homens trans em uma unidade feminina. É só um estudo, não queremos que eles sejam ainda mais segregados.

Segundo Carlos Renato, porém, a proposta não agradou:

— Primeiro, porque elas não poderiam levar os maridos, que também são presos. E, nas unidades femininas, ficariam muito sozinhas. A maior parte delas só recebe visita dos parentes do marido.

Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/censo-da-seap-mostra-que-mulheres-transexuais-nao-querem-ir-para-presidios-femininos-23242572


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